Cortes de carne bovina: dianteiro, traseiro e agulha

Quem entra em um açougue encontra uma lista de nomes que parece um vocabulário próprio: contrafilé, alcatra, maminha, picanha, coxão mole, patinho, acém, cupim. Saber de onde cada um vem na carcaça ajuda a escolher melhor o corte e o preparo, e também a entender por que algumas carnes ficam macias na grelha e outras pedem panela e paciência. Este guia parte de duas publicações da Embrapa para mostrar como a carcaça bovina é dividida e quais cortes saem de cada parte.

A carcaça em três grandes partes

Pesquisas da Embrapa descrevem a carcaça bovina, segundo sua importância comercial, em três partes: o traseiro especial, a ponta de agulha e o dianteiro. Um estudo da Embrapa Pecuária Sudeste, que mediu o rendimento dos cortes de bovinos de diferentes grupos genéticos, trabalhou justamente com essa divisão: traseiro especial, dianteiro com cinco costelas e ponta de agulha. A partir daí, cada parte foi desossada nos cortes comerciais que conhecemos no varejo.

É um sistema diferente do dos Estados Unidos, que divide a carcaça em outros cortes principais, como chuck, rib, loin e round. Por isso, comparar nomes de cortes de um sistema com os do outro exige cuidado: nem sempre há correspondência exata, e o mesmo músculo pode ter denominações diferentes. Neste guia, ficamos com a nomenclatura usada nas publicações da Embrapa.

Traseiro especial

É a parte de trás da carcaça. No estudo da Embrapa Pecuária Sudeste, os cortes comerciais do traseiro especial foram: contrafilé, filé mignon, alcatra com maminha, picanha, capa do filé, coxão mole, coxão duro, patinho, lagarto e músculo. A publicação de 1994 da Embrapa Gado de Corte cita também o filé mignon, o contrafilé e a alcatra entre as peças nobres destinadas à cota Hilton, do mercado europeu.

Em termos práticos:

  • Contrafilé, filé mignon, alcatra e picanha são os cortes que o estudo agrupa como "carne especial".
  • Coxão mole, coxão duro, patinho e lagarto formam o grupo de "carne de primeira".
  • Músculo do traseiro e os demais cortes do traseiro especial entram, no estudo, no grupo de "carne de segunda".

Repare no detalhe: essa classificação em especial, de primeira e de segunda é a usada nos estudos da Embrapa citados aqui, e não uma lei sobre sabor. Um corte "de segunda" pode ir muito bem em um cozido longo, e isso não tem nada de ruim.

Dianteiro

O dianteiro, no estudo, foi considerado com cinco costelas. Os cortes desossados foram: raquete, miolo da paleta, peixinho, cupim, peito, acém com pescoço e músculo do dianteiro. Todos eles foram classificados no grupo de "carne de segunda". O material de ciência da carne usado neste guia explica que os músculos do ombro são constantemente usados, e isso tem consequência direta na textura: o corte fica com mais tecido conjuntivo.

Na literatura de ciência da carne, a explicação é a mesma: cortes do dianteiro, como o chuck (equivalente aproximado do acém), o brisket (peito) e o shank (músculo), têm muito tecido conjuntivo e são pouco macios porque os músculos são muito usados. Por isso, esses cortes costumam ir bem em preparos úmidos e longos, como cozidos, ensopados e braseados, em que o colágeno se transforma em gelatina. O guia sobre maciez e cozimento aborda esse ponto em detalhe.

Ponta de agulha

É a terceira parte da carcaça. No estudo, ela não foi desossada. Aparece na lista de cortes tradicionalmente associados ao churrasco no trabalho da Embrapa: os autores calcularam a quantidade de "carne de churrasco" somando contrafilé, alcatra com maminha, picanha, cupim, peito e costela com fralda não desossada.

Um mapa mental para o açougue

  1. Pergunte de qual parte vem. Traseiro especial, dianteiro ou ponta de agulha. Essa informação já sugere o comportamento do corte.
  2. Associe músculo usado a mais tecido conjuntivo. Os cortes do dianteiro tendem a pedir preparo úmido e longo.
  3. Escolha o método de acordo com o corte, não com o hábito. Um bife rápido é ótimo para cortes com menos tecido conjuntivo, e um cozido longo é ótimo para os que têm mais.
  4. Peça ao açougueiro o formato que precisa. Em cubos para ensopado, em bife fino, em peça inteira para assar: ele conhece o corte.

Erros comuns

  • Achar que "de segunda" significa "de pior qualidade". É uma categoria comercial, e vários desses cortes brilham em receitas de cozimento longo.
  • Misturar nomes de sistemas de corte. Um corte com nome do sistema americano pode não ter equivalente exato na nomenclatura da Embrapa.
  • Trocar corte sem ajustar o preparo. Se você troca um bife de traseiro por um corte de dianteiro em uma receita de grelha rápida, o resultado tende a ser mais duro.
  • Ignorar a direção das fibras ao fatiar. Ela também influencia a maciez na mesa.

Como usar este conhecimento na cozinha

Imagine que uma receita pede carne para um cozido de panela. Em vez de procurar o corte mais caro, você já sabe que cortes do dianteiro, como acém e peito, com bastante tecido conjuntivo, tendem a dar um resultado macio depois de bastante tempo em calor úmido. Se o plano é grelhar, você olha para o traseiro especial e para cortes como contrafilé e alcatra. E, para o churrasco, já sabe que cupim, peito e costela com fralda fazem parte do repertório citado no estudo, ao lado de contrafilé, alcatra com maminha e picanha.

O ponto-chave é ligar três coisas: de onde a carne vem, quanto tecido conjuntivo ela tem e que método de cozimento combina com isso. Com esse trio, o açougue deixa de ser uma lista de nomes e vira um cardápio de possibilidades.

Pontos para lembrar

  • A Embrapa descreve a carcaça em três partes: traseiro especial, ponta de agulha e dianteiro.
  • Picanha, filé mignon, contrafilé e alcatra vêm do traseiro especial.
  • Acém, cupim, peito, paleta e músculo do dianteiro vêm do dianteiro.
  • No estudo da Embrapa, "carne especial", "de primeira" e "de segunda" são categorias comerciais.
  • Cortes com mais tecido conjuntivo pedem cozimento úmido e demorado.

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Perguntas ligadas a este guia

Em um estudo da Embrapa sobre rendimento de cortes, de qual parte da carcaça bovina vem o cupim?

Resposta: Do dianteiro

No estudo da Embrapa Pecuária Sudeste, o cupim aparece entre os cortes do dianteiro, junto de acém, peito, raquete, paleta e peixinho.

Fonte: Embrapa Pecuária Sudeste — Rendimento de cortes cárneos de bovinos não-castrados (Cruz et al., 2005)

Quais são os três grandes cortes comerciais em que a carcaça bovina foi dividida no estudo da Embrapa?

Resposta: Traseiro especial, dianteiro com cinco costelas e ponta de agulha

A carcaça resfriada foi dividida em traseiro especial, dianteiro com cinco costelas e ponta de agulha. Depois, cada parte foi desossada nos cortes comerciais conhecidos, como contrafilé, cupim e acém.

Fonte: Embrapa Pecuária Sudeste — Rendimento de cortes cárneos de bovinos não-castrados (Cruz et al., 2005)

Em qual parte da carcaça bovina, segundo a Embrapa, ficam a picanha e o filé mignon?

Resposta: No traseiro especial

Contrafilé, filé mignon, alcatra com maminha, picanha, coxão mole, coxão duro, patinho e lagarto são cortes do traseiro especial no estudo da Embrapa Pecuária Sudeste.

Fonte: Embrapa Pecuária Sudeste — Rendimento de cortes cárneos de bovinos não-castrados (Cruz et al., 2005)

Fontes consultadas

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