Azeite, óleos e gorduras: o que dizem a norma e o Guia

Na prateleira do mercado, o azeite aparece com nomes que parecem sinônimos: extra virgem, virgem, "azeite de oliva", "tipo único". Não são. Cada termo tem definição oficial em norma técnica, e conhecê-la evita pagar caro por um produto sem saber o que ele é. Neste guia, vamos separar o que a Instrução Normativa nº 1/2012 do Ministério da Agricultura estabelece para o azeite e o que o Guia Alimentar do Ministério da Saúde orienta sobre o uso de óleos e gorduras em geral.

O que é, legalmente, azeite de oliva

A norma define azeite de oliva como o produto obtido somente do fruto da oliveira (Olea europaea L.). Ficam excluídos dessa definição todo óleo obtido com solvente, por processo de reesterificação ou pela mistura com outros óleos, seja qual for a proporção. Em outras palavras: se houver óleo de soja "batizando" a garrafa, aquilo não pode ser chamado de azeite de oliva.

Já o óleo de bagaço de oliva é outra coisa: vem do bagaço do fruto, tratado fisicamente ou com solvente, e, quando destinado ao consumo humano, precisa ser refinado. É um produto à parte, com sua própria denominação.

Os grupos: virgem, azeite de oliva e refinado

A norma divide o azeite em grupos conforme a matéria-prima, o processo de obtenção e os tratamentos aplicados:

  • Azeite de oliva virgem: extraído do fruto unicamente por processos mecânicos ou outros meios físicos, sob controle de temperatura adequada, mantendo a natureza original do produto. Pode passar por lavagem, decantação, centrifugação e filtração.
  • Azeite de oliva refinado: vem de azeite do grupo virgem por técnicas de refino que não alterem a estrutura glicerídica inicial.
  • Azeite de oliva: mistura de azeite refinado com azeite virgem ou extra virgem.

Esse último ponto costuma surpreender. Quando o rótulo diz apenas "azeite de oliva", sem "extra virgem" ou "virgem", o produto, pela norma, pertence ao grupo da mistura de refinado com virgem. Não é fraude: é uma categoria legítima, com definição própria. O que importa é ler a denominação com atenção.

Refinar, o que significa

A norma descreve refino como etapas de tratamento que incluem, isolada ou cumulativamente, neutralização, deceragem, clarificação e desodorização. Na neutralização, promove-se a neutralização dos ácidos orgânicos naturalmente presentes no óleo. Na clarificação, usam-se adsorventes para remover clorofila, metais e outros compostos indesejáveis. A desodorização elimina substâncias indesejáveis por destilação com vapor sob alta temperatura e alto vácuo. A ideia geral é tornar o óleo próprio para consumo quando a matéria-prima original não estaria.

Os tipos do azeite virgem

Dentro do grupo virgem, a norma cria três tipos, definidos por parâmetros de qualidade. O primeiro é a acidez livre, que representa o teor de ácidos graxos livres, expresso em porcentagem de ácido oleico. Não é acidez de gosto, como a do limão: é uma medida química que ajuda a indicar o estado do óleo.

  • Extra virgem: acidez livre menor ou igual a 0,80%.
  • Virgem: acidez livre menor ou igual a 2,00%.
  • Lampante: acidez livre maior que 2,00%.

Além da acidez, a norma considera o índice de peróxidos e a extinção específica no ultravioleta. Esses testes são de laboratório; na cozinha, você não os faz, mas eles explicam por que "extra virgem" é uma categoria com critério mensurável e não uma expressão de marketing. A oxidação das gorduras, por exemplo, é justamente o que o índice de peróxidos procura medir.

O grupo virgem ainda tem avaliação sensorial, exclusivamente quanto a odor e sabor. A norma trata do resultado dessa avaliação em anexo específico.

O azeite "comum" e o lampante

A norma faz uma equivalência que vale conhecer: o azeite chamado de comum ou corriente é classificado como azeite virgem do tipo lampante. E o lampante não pode ser destinado diretamente à alimentação humana. Ele pode ser refinado, para depois se enquadrar como azeite de oliva ou azeite refinado, ou ser usado para outros fins. Isso ajuda a entender a lógica de todo o sistema: o refino serve, justamente, para recuperar um óleo que não estaria apto a ir direto à mesa.

Há ainda a figura do produto "fora de tipo", que é o que não atende a um ou mais limites de qualidade do tipo declarado, e do "desclassificado", que tem a comercialização proibida em situações como a presença de outros óleos não provenientes da oliveira.

Lendo o rótulo de azeite

Com base na norma, três hábitos ajudam na hora da compra:

  1. Procure a denominação exata: extra virgem, virgem, azeite de oliva (mistura) ou refinado.
  2. Lembre que "extra virgem" e "virgem" falam de processo mecânico e de parâmetros químicos, não de marca ou de país de origem.
  3. Observe as datas: a norma define a data de envasilhamento como o dia, mês e ano em que o lote foi envasado, e determina que ela seja expressa em caracteres do mesmo tamanho da data de validade.

Em resumo, a norma fornece um vocabulário: quem sabe o que cada palavra significa lê o rótulo com mais segurança e escolhe o azeite conforme o uso que pretende dar a ele.

E os outros óleos e gorduras?

O Guia Alimentar coloca azeite, óleos de soja, milho e girassol, manteiga, banha de porco e gordura de coco na mesma categoria: produtos alimentícios extraídos de alimentos in natura, usados para temperar e cozinhar. Para o Guia, eles servem para refogar legumes e carnes, cozinhar arroz e feijão, fritar ovos e preparar caldos e sopas. O óleo também entra como tempero de saladas.

O documento destaca que esses produtos têm alta densidade calórica: óleos e gorduras têm cerca de 6 vezes mais calorias por grama do que grãos cozidos e 20 vezes mais do que legumes e verduras cozidos. Por isso, a orientação é usá-los em pequenas quantidades. O Guia acrescenta que, sendo usados para temperar e cozinhar, o impacto deles na qualidade nutricional da alimentação depende essencialmente da quantidade empregada nas preparações. Não se trata de proibir; trata-se de dosar.

Em resumo, a orientação do Guia não é cortar o óleo da cozinha, e sim lembrar que ele é um ingrediente de pouca quantidade e muita energia, e que o hábito de conferir quanto vai à panela ou à salada é coerente com essa leitura.

Erros comuns

  • Achar que "azeite de oliva" e "azeite extra virgem" são a mesma coisa. Pela norma, o primeiro é uma mistura de refinado com virgem.
  • Confundir acidez de sabor com acidez livre. A acidez livre é uma medida do teor de ácidos graxos livres, em ácido oleico.
  • Supor que o refinado é "adulterado". O refino é processo previsto na norma; o problema é a mistura com outros óleos, que a norma proíbe no azeite.
  • Usar gordura sem medir. O Guia lembra que a quantidade é o que define o impacto.

Pontos para lembrar

  • Azeite de oliva vem somente do fruto da oliveira; mistura com outros óleos não é permitida.
  • O virgem é extraído por processos mecânicos ou físicos, com temperatura controlada.
  • Extra virgem tem acidez livre de até 0,80%; virgem, de até 2,00%; acima disso é lampante.
  • Lampante não vai direto à alimentação humana, mas pode ser refinado.
  • "Azeite de oliva" é a mistura de refinado com virgem ou extra virgem.
  • Segundo o Guia Alimentar, óleos e gorduras devem ser usados em pequenas quantidades ao cozinhar.

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Perguntas ligadas a este guia

Segundo a IN MAPA nº 1/2012 (azeite de oliva), como o azeite virgem é extraído do fruto da oliveira?

Resposta: Unicamente por processos mecânicos ou outros meios físicos, com temperatura controlada

A Instrução Normativa MAPA nº 1/2012 define azeite de oliva virgem como o produto extraído do fruto da oliveira unicamente por processos mecânicos ou outros meios físicos, sob controle de temperatura adequada. Óleos obtidos com solvente ou por mistura com outros óleos ficam fora da definição de azeite de oliva.

Fonte: MAPA — Instrução Normativa nº 1/2012 (Sislegis, Ministério da Agricultura)

Qual é o limite máximo de acidez livre para um azeite ser classificado como extra virgem pela IN MAPA nº 1/2012?

Resposta: 0,80% (expresso em ácido oleico)

No Anexo I da IN MAPA nº 1/2012, o azeite virgem do tipo extra virgem deve ter acidez livre menor ou igual a 0,80%. O tipo virgem admite até 2,00%, e acima disso o azeite é lampante.

Fonte: MAPA — Instrução Normativa nº 1/2012 (Sislegis, Ministério da Agricultura)

Na IN MAPA nº 1/2012, o que acontece com o azeite virgem do tipo lampante (acidez acima de 2,00%)?

Resposta: Não pode ir direto à alimentação humana, mas pode ser refinado para depois ser usado

A IN nº 1/2012 determina que o azeite virgem lampante não pode ser destinado diretamente à alimentação humana; pode, porém, ser refinado (passando ao grupo azeite de oliva ou azeite de oliva refinado) ou usado para outros fins. A norma também classifica o azeite chamado de comum ou corriente como lampante.

Fonte: MAPA — Instrução Normativa nº 1/2012 (Sislegis, Ministério da Agricultura)

Fontes consultadas

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