In natura, processado, ultraprocessado: como classificar

Quem cozinha acaba fazendo uma pergunta simples na hora de comprar: isso aqui é ingrediente de verdade ou já veio quase pronto? O Guia Alimentar do Ministério da Saúde, organiza a resposta em quatro categorias, definidas pelo tipo de processamento que o alimento sofre antes de chegar à sua cozinha. Entender essa divisão ajuda a montar a despensa, a interpretar rótulos e a decidir onde vale a pena gastar tempo e dinheiro.

A lógica: o que importa é o processamento

O Guia não classifica por "engorda" ou "não engorda", nem por gosto. Ele olha para o que foi feito com o alimento antes da compra: foi só limpo e embalado? Recebeu sal, açúcar, óleo? Passou por várias etapas industriais e ganhou ingredientes que ninguém tem em casa? Essas perguntas separam os alimentos em quatro grupos: in natura ou minimamente processados, óleos, gorduras, sal e açúcar, processados e ultraprocessados.

Grupo 1: in natura e minimamente processados

Alimentos in natura são obtidos diretamente de plantas ou de animais e comprados sem qualquer alteração depois de deixarem a natureza. Pense em uma laranja, uma folha de couve, um ovo. O Guia reconhece, porém, que mesmo esses costumam passar por limpeza, remoção de partes não comestíveis e refrigeração antes de chegar ao mercado.

Os minimamente processados são alimentos in natura que sofreram alterações mínimas: limpeza, remoção de partes não comestíveis, fracionamento, moagem, secagem, fermentação, pasteurização, refrigeração ou congelamento. O ponto decisivo é que não há adição de sal, açúcar, óleos, gorduras ou outras substâncias. Entre os exemplos citados pelo Guia estão:

  • arroz branco, integral ou parboilizado;
  • feijão de todas as cores, lentilha e grão-de-bico;
  • farinhas de mandioca, de milho ou de trigo, e macarrão feito só dessas farinhas com água;
  • carnes e pescados frescos, resfriados ou congelados;
  • leite pasteurizado, ultrapasteurizado (o "longa vida") ou em pó, e iogurte sem adição de açúcar;
  • castanhas, nozes e amendoim sem sal ou açúcar, além de ervas e especiarias;
  • ovos, chá, café e água potável.

Repare que o leite "longa vida" está aqui: passar por um tratamento térmico que prolonga a durabilidade não o transforma em ultraprocessado, porque nada é acrescentado. O mesmo vale para o feijão congelado ou para o frango que vem resfriado em bandeja.

O Guia também faz uma ressalva interessante: em alguns casos, o processamento mínimo pode reduzir nutrientes, como no polimento excessivo dos grãos. Nessas situações, ele sugere preferir a versão menos processada, como o arroz integral e a farinha de trigo menos refinada. Ainda assim, ele afirma que, na grande maioria das vezes, os benefícios do processamento mínimo superam as desvantagens.

Grupo 2: óleos, gorduras, sal e açúcar

Esta é a categoria dos produtos que você usa para temperar e cozinhar. São extraídos de alimentos in natura ou da natureza, por processos como prensagem, moagem, trituração, pulverização e refino. O Guia cita como exemplos os óleos de soja, milho, girassol ou oliva, a manteiga, a banha de porco, a gordura de coco, o açúcar de mesa branco, demerara ou mascavo e o sal de cozinha refinado ou grosso.

Na prática, eles são o "tempero de fundo" da comida caseira: o óleo que refoga a cebola, o sal do arroz, o açúcar do bolo. O Guia destaca que raramente são consumidos sozinhos e que não substituem os alimentos do primeiro grupo. A recomendação é usá-los em pequenas quantidades, sempre combinados com alimentos in natura ou minimamente processados.

Grupo 3: processados

Alimentos processados são fabricados essencialmente com a adição de sal ou açúcar (ou de outra substância de uso culinário, como óleo ou vinagre) a um alimento in natura ou minimamente processado. O objetivo é aumentar a duração e deixar o alimento mais agradável ao paladar. As técnicas se parecem com as da cozinha: cozimento, secagem, fermentação, salga, salmoura, cura, defumação e conservação em latas ou vidros.

Exemplos do Guia: legumes em conserva, extrato de tomate com sal ou açúcar, frutas em calda ou cristalizadas, carne seca, sardinha e atum enlatados, queijos e pães feitos de farinha de trigo, leveduras, água e sal. Um traço útil para reconhecê-los: continuam parecendo uma versão do alimento original. Uma azeitona em conserva ainda é claramente uma azeitona.

O Guia recomenda limitar o uso, consumindo-os em pequenas quantidades como ingredientes de preparações ou como acompanhamento de refeições baseadas em alimentos in natura. Um exemplo do próprio texto: o queijo ralado acrescentado a preparações de macarrão, citado como uso apropriado de um alimento processado como parte, e não como substituto, de uma preparação culinária. Quando o produto é comprado, vale conferir o rótulo e preferir os de menor teor de sal ou açúcar.

Grupo 4: ultraprocessados

São formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos, com muitas etapas de processamento e vários ingredientes, muitos de uso exclusivamente industrial. O Guia cita como exemplos biscoitos recheados, salgadinhos "de pacote", refrigerantes e macarrão "instantâneo".

Um caso que surpreende é o do pão. Um pão de farinha, leveduras, água e sal é processado. Mas, segundo o Guia, pães e produtos panificados tornam-se ultraprocessados quando, além desses itens, levam substâncias como gordura vegetal hidrogenada, açúcar, amido, soro de leite, emulsificantes e outros aditivos. Ou seja, o mesmo nome no balcão pode esconder duas categorias diferentes, e só a lista de ingredientes revela qual é qual.

Como usar o rótulo na prática

O Guia oferece um critério prático: consultar a lista de ingredientes, que por lei consta nos rótulos de alimentos embalados com mais de um ingrediente. Um número elevado de ingredientes (frequentemente cinco ou mais) e, principalmente, nomes pouco familiares, que não usamos em preparações culinárias, indicam ultraprocessado. Entre os exemplos de nomes desse tipo estão gordura vegetal hidrogenada, óleos interesterificados, xarope de frutose, isolados proteicos, espessantes, emulsificantes, corantes, aromatizantes e realçadores de sabor.

Um teste caseiro que decorre disso: imagine a lista escrita na sua cozinha. Farinha, água, sal e fermento você reconhece e tem no armário. Se a lista tem itens que você jamais compraria para cozinhar, é sinal para desconfiar.

Erros comuns ao classificar

  • Achar que "embalado" significa ultraprocessado. Arroz, feijão, leite e macarrão de trigo com água vêm embalados e seguem no primeiro grupo.
  • Confundir processado com ultraprocessado. A diferença está no número e no tipo de ingredientes, não no fato de o alimento ter passado por fábrica.
  • Esquecer que o tempero também é categoria. Óleo, sal e açúcar têm lugar próprio e uma orientação própria: pequenas quantidades.
  • Ignorar a receita caseira. Um bolo feito em casa com farinha, ovos, açúcar e manteiga é uma preparação culinária, não um ultraprocessado, mesmo que leve açúcar.

A regra de ouro e a compra inteligente

O Guia resume tudo numa regra: prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados. Isso significa, por exemplo, escolher água, leite e frutas no lugar de refrigerantes e biscoitos recheados, e manter a "comida feita na hora", como caldos, saladas, arroz e feijão, em vez de trocá-la por produtos que dispensam preparo.

Uma dica de bolso do mesmo documento: para legumes, verduras e frutas, prefira as variedades da safra, que tendem a ter menor preço, mais sabor e mais qualidade. Comprar em feiras, sacolões ou diretamente de produtores também pode reduzir custos.

Pontos para lembrar

  • A classificação do Guia se baseia no tipo de processamento, não em receita ou marca.
  • In natura e minimamente processados não recebem sal, açúcar, óleos ou gorduras na fabricação.
  • Óleos, gorduras, sal e açúcar são para temperar e cozinhar, em pequenas quantidades.
  • Processados são alimentos reconhecíveis com sal, açúcar ou vinagre adicionados, como conservas, queijos e pães simples.
  • Cinco ou mais ingredientes e nomes estranhos na lista sugerem ultraprocessado.
  • O mesmo tipo de produto, como o pão, pode cair em categorias diferentes conforme os ingredientes.

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Perguntas ligadas a este guia

Segundo o Guia Alimentar do Ministério da Saúde, o que são alimentos in natura?

Resposta: Alimentos obtidos diretamente de plantas ou animais, sem alteração após deixarem a natureza

O Guia define alimentos in natura como aqueles obtidos diretamente de plantas ou de animais (como folhas, frutos, ovos e leite) e adquiridos sem qualquer alteração depois de deixarem a natureza. A definição trata do processamento, não do modo de cultivo nem do local de venda.

Fonte: Ministério da Saúde — Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª ed., cap. 2

Como o Guia Alimentar descreve óleos, gorduras, sal e açúcar?

Resposta: Produtos extraídos de alimentos ou da natureza, usados para temperar e cozinhar

O Guia explica que óleos, gorduras, sal e açúcar são produtos extraídos de alimentos in natura ou da natureza, usados nas cozinhas para temperar e cozinhar e criar preparações culinárias. Eles não substituem alimentos in natura ou minimamente processados.

Fonte: Ministério da Saúde — Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª ed., cap. 2

Em qual categoria do Guia Alimentar se enquadra o leite pasteurizado?

Resposta: Alimentos minimamente processados

O Guia cita o leite pasteurizado como exemplo de alimento minimamente processado: é um alimento in natura que passou por alteração mínima, sem adição de sal, açúcar, óleos ou gorduras.

Fonte: Ministério da Saúde — Guia Alimentar para a População Brasileira, 2ª ed., cap. 2

Fontes consultadas

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